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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Eu creio na alma



Eu creio na alma/ Nau feita para as grandes travessias/ Que vaga em qualquer mar e habita em qualquer porto/ Eu creio na alma imensa/ A alma dos grandes mistérios/ A grande alma que em vão busquei sufocar/ Eu creio na alma eterna/ A alma boa, a alma pura, a alma singela/ A alma que possui o espaço/ A alma que não possui o tempo/ A grande alma sozinha/ Capaz de conter toda a humanidade/ Senhor! Eu creio nela/ Eu creio na minha alma extraordinária/ Ela era como o templo/ Onde os vendilhões mercadejavam/ Ela expulsou os vendilhões, Senhor!/ E os pássaros cantaram. Eu creio na alma grande/ Em busca dum élan que a lance sempre/ Para o eterno movimento/ A alma espelho das águas/ Onde o céu reflete os pássaros que voam/ Eu creio em ti, Senhor/ Porque és a alma que é o céu onde os pássaros voam/ E que se reflete no espelho das águas/ Porque és a grande alma que paira/ Eu creio em mim, Senhor/ Porque sou alma feita à tua semelhante/ Grande alma onipotente/ Que no começo era o nada/ O nada - vazio das almas/ O nada cheio de treva e maldição/ Mas o espírito erguia-se do caos/ E a treva fez-se luz/ A luz cheia de átomos de vida/ A luz - a grande luz que sobe sempre.

(Vinícius de Moraes)

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